8 de agosto de 2026 · Por Thiago Pires
TDAH visto de dentro: a atenção não é um interruptor
Preciso começar com honestidade. O TDAH é real, é uma condição do neurodesenvolvimento bem documentada, causa sofrimento concreto e muitas vezes melhora com diagnóstico adequado e, quando indicado, medicação. Não tenho interesse na ideia preguiçosa de que "todo mundo tem um pouco de TDAH". Isso banaliza a dor de quem vive com a condição e atrapalha quem precisa de avaliação séria.
O que a fenomenologia acrescenta não compete com a clínica. É uma camada a mais, sobre como é, por dentro, viver com uma atenção que funciona diferente.
A gente costuma pensar a atenção como um interruptor que a pessoa aponta para onde quer. Daí vêm as frases que todo mundo com TDAH já ouviu: "é só se concentrar", "se quisesse, conseguiria". Mas a atenção não é um interruptor. É uma relação entre você e o mundo. A gente não decide prestar atenção no vazio, a gente é atraído pelo que tem apelo, interesse, sentido.
Isso explica o fenômeno que mais confunde: a pessoa que "não foca em nada" mergulha por horas no que ama. No TDAH, a atenção não está ausente, ela está fortemente ligada ao que pulsa e desligada do que é cinza e abstrato. Manter-se no que não tem apelo exige gerar internamente um interesse que para os outros vem mais fácil de fora. É um esforço invisível e exaustivo, frequentemente confundido com preguiça.
Quando entendemos a atenção como relação, muda o lugar da culpa. A pessoa deixa de ser alguém que "não se esforça" e passa a ser alguém que precisa de pontes reais, clínicas inclusive, entre ela e as tarefas que a vida exige.
Se isso descreve a sua experiência ou a de alguém próximo, podemos conversar sobre o que de fato ajuda.
Thiago Pires de Azevedo é psicólogo clínico (CRP 05/83313) e atende online com abordagem fenomenológico-existencial. Psicologia, mas não psicologiza.
Este texto tem caráter informativo e reflexivo. Não substitui acompanhamento psicológico ou médico individualizado. Se você está enfrentando sofrimento intenso, procure um profissional de saúde.